• Cotidiano,  Comportamento,  Pets

    Gatinhos

    O portão da escola é um laboratório social. As crianças chegam em câmera lenta, envoltas no casaco do uniforme, num silêncio que pesa. Olho para elas e vejo gatinhos que começam a se aventurar fora do ninho.   Há dias em que o “bom dia” flutua no ar e cai no chão, sem resposta. Elas passam direto. É o corpo que atravessa o portão; a vida ainda ficou sob o edredom. Um protesto mudo contra o desjejum apressado, o uniforme obrigatório, o trânsito.   Quem tem humor para o mundo antes das oito? Eu, nos meus cinquenta, ainda o procuro — quase todas as manhãs.   Quando

  • Cotidiano,  Comportamento

    Vibrou

    O meu bolso vibrou. Juro que vibrou. E eu não dei autonomia para ele vibrar sozinho.   Dizem que duas em cada três pessoas já sentiram isso. A terceira está mentindo.   A coreografia é sempre a mesma: você sente a vibração, pega o celular, olha… e nada. Então passa pelo ritual universal da cara de paisagem, fingindo que desbloqueia a tela por iniciativa própria, só para “ver as horas”.   Descobri, lendo aqui e ali, que isso

  • Leitura,  Memórias

    Contadora

    Minha mãe era especialista em contar histórias. Tenho muitas dessas lembranças guardadas, algumas vívidas como se tivessem acontecido ontem. Tive a sorte de ser aluno dela em duas séries: Pré e 3ª (hoje 4º ano).   Quando eu era pequeno, ousei mentir sobre algo que já nem me lembro. Então ela me contou uma história do

  • Cotidiano

    Scroll Up

    Quero deixar registrado, por meio desta crônica aberta, o meu protesto formal contra o scroll up.   Houve um tempo em que preencher um cadastro tinha o tom de uma conversa. Alguém perguntava, e eu respondia, e a vida seguia com relativa dignidade. Depois vieram os formulários de papel, que exigiam um certo compromisso com a caligrafia.   De repente, nasceram os formulários digitais.   No começo, eles moravam nos computadores da lan house ou no PC de casa, quando ainda havia a ilusão de que tecnologia era algo que eu visitava. Em algum momento, sem aviso prévio, esses

  • Leitura,  Pensamentos

    Colo

    Sabe aqueles dias em que nada está bom? Tudo te irrita e você sente que talvez nem devesse sair da cama? Não precisa ter acontecido uma tragédia. É só fadiga. Aquele cansaço em que você sente que está sempre devendo algo — ao tempo, às pessoas e, muitas vezes, à própria fé. Nesses dias escuros, eu não quero religião, teologia ou cobrança para ter mais disciplina ou maior espiritualidade. Minha alma só pede colo. Eu, só quero colo. Não tenho vontade de orar. Fazer isso, de repente, parece bobo. Mesmo quando insisto para

  • Comportamento,  Cotidiano

    Melhor que ontem

    — Eu decidi ser uma ovelha negra — disparou Gomercindo, com a seriedade de quem anuncia candidatura à presidência da República, enquanto tentava espetar um cubinho de tofu que se comportava como sabonete ensaboado. — O problema é que preciso encontrar um rebanho da mesma cor.   Estávamos num restaurante vegano tão minimalista que eu tive medo de sentar e quebrar o conceito. O lugar era tão clean que

  • Comportamento,  Cotidiano,  Pensamentos

    Antigamente

    Antes, a vida vinha com três gavetas: família, trabalho e lazer. Não era pouco, mas cabia. Hoje, a vida é um checklist infinito, atualizado em tempo real, otimizado por IA, com notificação sonora da Alexa e da Siri. Antes, a gente postava foto tremida. Agora, posta trauma em alta definição, com legenda reflexiva e filtro que valoriza o sofrimento. Não basta ter vivido; é preciso

  • Leitura

    Melhor Bíblia

    Quando você entra em uma livraria ou pesquisa no celular, surge a dúvida: qual é a melhor versão da Bíblia? A resposta é: Não existe. Há diversas versões, cada uma destinada a um tipo de leitura, propósito ou estilo de estudo. No fim do artigo eu te mostro como eu faço. A “melhor” Bíblia é aquela que você lê com constância e compreensão. Uma tradução que eu não entendo, não tem valor. Enquanto uma versão clara e acessível fala comigo.

  • Comportamento,  Pensamentos

    Mentirinhas

    Não existe nada mais ofensivo do que um roteiro que decide que o espectador sofre de demência temporária. O herói está prestes a sair para uma missão impossível, o arco do personagem sendo pressionado ao máximo, quase rachando, mas ele olha para a mocinha e solta a pérola: “Eu vou voltar. Eu prometo”. “Eu vou voltar” posso até considerar um desejo, o anseio de quem ama e não quer perder. Mas soltar um “Eu prometo”? Eu não consigo prometer isso nem

  • Cotidiano,  Pets

    Gravidade

    Eu descia um rio morno. Sem esforço, sem boia, deixando a correnteza decidir o percurso. Não era raso, nem fundo. Não dava pé, mas também não dava medo. Não era metáfora, retiro espiritual nem crise de meia-idade — era só um rio mesmo. Como o rio quente de Goiás. De vez em quando, eu sentia uma pedra ralando meu pé com delicadeza. Um obstáculo gentil. Como se fossem aveludadas. De repente, cheguei